Exausto, chegava em casa, pedia a bênção à mãe, beijava os irmãos e se lamentava pelo pai não estar em casa. O pai estava morando em Cubatão para trabalhar na obra de uma outra empresa, mas, aos finais de semana, visitava a família e trazia dinheiro. Cansado, súor na testa, raiva no coração. Como aquele lugar era fedido! O esgoto ali, a céu aberto. Exposto, posto perto de casa. Estranho, por quê no centro não era assim?
O esgoto. Nojo. De onde vem? Das nossas casas. Só delas? Como acabar com isso? Quem deveria se responsabilizar por isso? Afinal, mesmo exausto, cansado, acabado, ainda tinha telencéfalo desenvolvido e polegar opositor, como todos outros. Como os moradores do centro, como os moradores de Santos. Como o pai, a mãe, o José, o João, a Maria, o irmão mais novo e o vizinho.
Não dormiu bem aquela noite, sentiu inveja, raiva, quis ser o homem mais rico do mundo! O sono veio. O outro dia também. Mais um dia de trabalho pesado e deixou com que suas indagações fossem embora junto com o esgoto. Afinal, é preciso agradecer a Deus, poderia não ter nada. Afinal, seu time vai muito bem nos campeonatos. Afinal, aos finais de semana, sai com os amigos e azara meninas lindas. Afinal, ele é morador de palafita.
Danielle Almeida de Carvalho/ Bartira

